segunda-feira, 13 de julho de 2015

Alentejo. A brasa. Ir. Ser em cada flor, a aberta. Em cada uma delas, inquieta, o apelo, a inquietação. A intensidade é um flúmen assíduo, o fogo.
Rebenta-me a viagem, luze o dia e os abandonos descerrados, a aldeia, Fortios, à sombra da cal que em pulcritude no mês de Junho regressa para alamar as paredes.


Acendo o cigarro, rizomaticamente.

A abstração contínua, a fenda entre origens. Há um eixo penitente, e no silêncio transparece o tumulto, onde nascem os caminhos, onde nasce a minha fome permanente e jamais saciada, o horizonte que no Alentejo é tão famélicos como os meus anseios. Largos.

O cheiro silvo, as visões, onde incertos ressurgem os confins. Ao compasso das pernas robustas, é ela, a liberdade. O grito nórico da terra. A papoila. Que desabrocha, incendiando-me, em aberto desencadeando toda uma dileção avassaladora, mais devasta que o fulgor do sol quando grassa.

As papoilas escancaram-se e pouco a pouco o que escrevo escancara-se, por minha vontade. A excitação, o sangue vorás e capitoso dinamitando a palavra e a resplandecência e sobre elas ruge. E da lua ao céu. Um escarlate durativo e inumerável…




Luísa Demétrio Raposo





*excerto retirado do Livro das Papoilas, a editar.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Faz-me tremenda confusão o facto de a grande maioria das pessoas ter vergonha e algum pudor quando se fala de sexo, agem com mentalidade infantil, completamente. Eu não entendo como é possível e pergunto-me, o que é isto?
Têm pudor em falar da vulva do pénis, do pénis dentro da vulva, da boca que engole o pénis… existe pudor em falar do foder, há risos e sobretudo muita fome sexual escondida, a grande maioria não faz sexo verdadeiramente, expõe os órgãos um ao outro mas poucos a exploram verdadeiramente, e na rua não se fala; dá-se nomes totalmente ridículos aos órgãos sexuais, como pipi e pilinha, uma certa vez eu fui apresentada como uma pessoa que escrevia sobre pipis. Eu fiquei chocada.
Mas o que me choca ainda mais é o facto de não existir pudor em se falar em violência, em guerra, na miséria, na hipocrisia, que eu acho totalmente pornográfica.
Acho repugnante o facto de a grande maioria das pessoas à hora da refeição assistirem tv e aos respetivos noticiários e vão comendo a violência juntamente com a comida que engolem e assim a violência entra dentro do ser e torna-se comum, desbanaliza-se, afinal não é connosco, são os outros os que aparecem na tv e esquecem que todos estamos interligados, que o que acontece ao outro está relacionado diretamente connosco.
Comer é um acto sexual, o acto de comer é um ritual todo ele ligado ao sagrado, existem tribos que comem e praticam o acto sexual em simultâneo, e esses povos têm tanto para nos ensinar em termos de sociedade. Violência e alimentação jamais devem coincidir juntos, é antinatural. No entanto a grande maioria das pessoas o faz e sem nenhum pudor, sem questionar, e isto pessoalmente é para mim inconcebível de entender.
Pornografia é a fome que os povos causam uns aos outros, a escravidão, a castração, a guerra e a violência que se engole e que se permite, pornografia é a mentira e a hipocrisia. Pornografia é a desumanização, é a monstruosidade praticada pela sociedade consumista, pornográfico é o desrespeito pelo outro e e pela sua liberdade, pornográfico é o tráfico de seres humanos e a escravização do trabalho humano, praticado a olhos nus na nossa sociedade, pornografia é pensarmos que somos superiores aos outros só porque exibimos um canudo ou existe uma conta no banco em nosso nome recheada de dinheiro, pornográfico é o próprio dinheiro, pornográfico, pornográfico!
A Sexualidade é Divina, é uma religiosidade, é vida, é o que liga os deuses uns aos outros, é o que nos liga diretamente à Matriz. É a ligação direta ao Universo e à energia. O sexo é a única religião que existe, todas as outras e com o devido respeito não passam de políticas.
Sobretudo o que me choca ainda mais, o que considero sobretudo pornográfico e nojento é seres que se dizem ligados à arte, artistas que não o são, porque a alma artística sabe que na arte seja qual for não “existe” sem a ligação direta ao sexo; tudo é sexual na arte e na sua forma de expressão, tudo no mundo é sexual, nada existe fora do sexo.
Mas nesses pseudoartistas o que me choca profundamente é o seu pudor-castrador e a perseguição moral que praticam em relação aos artistas que falam e exercem o seu divino, acho abominável e só revela uma total e profunda ignorância não só em relação à arte mas em relação à vida no seu todo, uma falta de tudo, sobretudo revelam uma carência muito grande, falta-lhes o foder.

Luísa Demétrio Raposo
4 de Julho 2015
* pensamento do dia
Na insubordinação dos meus dias, estou só e exilada do meu sentir, só.
Só e obtusa, na violência emaranhada, o juízo dúbio, a destilação escarlate. O silêncio o monologo esconderijo onde os meus partos anárquicos suturam triângulos e saltos em atmosferas estuantes.
Estancada. Desarticulada. Mortiça, a cor confusa que plaina a gravitação.
Grito, encarniçando o sangue irresoluto. O desespero, a massa do silêncio, o ar que reúne alcateias na tentativa de libertar a tempestade...
.
Escuto-me em circunvalação. A voz tecla… o hálito vertical.
A profundidade corta à boca a respiração.
Estátua de sal.
Estarei morta e não dei por isso?





Luísa Demétrio Raposo
a escrita o grande frenesim o gérmen impulso
a vulva onde o assombro é a única poça de água
o êxtase onde são visíveis os lábios secretos do poema



ldr

terça-feira, 7 de julho de 2015

**

A boca alarga-se, voraz, quando acariciada em carne mutua. E arde em fúria entre o domínio das interrogações que correspondem ao escancarar. A curva ofegante. A ambição de posse orla a tempestade que o cio intérmino semeia. Na respiração. O sangue em bosque a emergir, impresso e rumorejante, liga haste à seiva, inclinando o sexo faminto ao lumaréu, e do quase nada se despe quase tudo...


Luísa Demétrio Raposo
*julho 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ao Jota, sempre...

Meus olhos se rasgam nus em ti.
Nu plácido destas páginas, o teu olhar é um
incêndio que procura arder nas minhas savanas!...


Luísa Demétrio Raposo

*do meu livro Nymphea

Da cópula



O caralho é a caligrafia que na página vincula os enliços
abstratos do sexo-escritor.

Apalpam-se os testículos e um caralho imenso atravessa as...
paredes para penetrar buracos atulhados de teias e os cardumes
de bocas que fodem malevolamente todos os pentelhos negros
que se distendem por um sexo teso.


É o cavalo refluxo que fulgura descentrado os quadris
amontoados do corpo, repulsando felpos dispostos de entre as
abóbadas do caralho que procria aleivosamente as gerações
futuras de humanoides de entre o dilúvio do sémen.


A minha vertigem, a enzima, o casco, a liana, onde as gigantes
limalhas antípodas arrancam os nós radiosos de todos os porquês.


O circular, anárquico, que pulsa e repulsa de entre os sexos que
afloram expansivos de entre os coitos.


No livro onde o corpo se esconde desterrando as escarpas do
medo, da fúria, do prazer, irregular que revela o medo. O cerco,
do falo, na existência, do encontrar, na hibernação, o pousio, dos
flávios destruídos nos minutos, no tempo que atravessa o ar e
retoma a imagem.


Sob cópula: o rugido, o ensaio, o fascículo, o escaparate, a
brochura interminável da escrita que estou prestes a atolar
descontinuamente nas pegadas do texto nómada, que segue
viagem pelas palacianas palavras onde imperiosamente se

constrói a minha intimidade.


**do meu livro Vermelho Al Mojanda

terça-feira, 30 de junho de 2015

O pretexto na carne que está entre sequências húmidas. Na moita, defecar perturba. Um poema aceso, simples iodo que no sexo desaperta o sangue. O esfíncter a larga e desintegra-se à sombra soerga. A pauta escarlate o veio que se refalsa de entre a intensa merda que sai tateando tudo num abuso ânuo.
É a rebeldia exposta à assimetria.


Luísa Demétrio Raposo
Reduzir o que eu escrevo somente ao erótico é muito redutor. Eu escrevo o orgânico. Toda a minha escrita é inteiramente orgânica.



ldr

domingo, 28 de junho de 2015

Coitada

Coito ardor, abismo, onde se cruzam os órgãos. Se desenrola,
rola, onde o fogo nunca derrama o leite.
És tu a alucinação na minha memória. O nosso epicentro.
Quilha no sentir. Que viva e quente, nos penetra o ser. Nos
come no vir. Potência infernal, na orla do nosso prazer. A cada...

pancada nossa uma vertigem se retira do teu astro cheio.
Almíscar. A argila táctil. E fica assim ateando a minha escrita
só pelo silêncio nu cercada. Põe a mão na noite e fica, não
porque o desejamos, mas porque Deus deu às partes sexuais
delírios e furos naturais. Húmidos. Orvalhados. Janelas de
força onde circula o odor de leite. Janelas opulentas, onde o
pau arde na flora, e onde a flora irrompe a haste desordenada.
Num poema...
Poesia é isto, um coito entre palavras, que se devoram entre
vozes, fôlegos e orifícios, superlativos uns aos outros e uns nos
outros...



Luísa Demétrio Raposo
in Respiração das Coisas/2010
Carta ao Pénis

Caro Pénis
O desejo é um enorme buraco selvagem.
E quando o desejo estala o silêncio, o cio imagina e aumenta-te....

Deverias saber como ninguém que o bosque húmido é uma
alucinação de memórias, lembrança volumosa e orbital, narinas
e ânus sob a fenda negra e que toda ela é aberta.
És alto em mim, entre o meu e o teu sangue eu estrangulo,
potente, doce, elementar, obscura...
Eu sou puro sexo e mato por fogo ou afogamento.
Sou carne curva no sobressalto vergado de funduras
frementes e delicadas.
O tesão serve-me e eu, sirvo-me dele tal como tu, é arte no
instinto.
Tu tocas onde eu te toco e os membros ambos abertos
fecham-se em carne profunda...
Até breve,
Sempre tua,
Vulva

Luísa Demétrio Raposo

in Respiração das Coisas/2010

quinta-feira, 25 de junho de 2015

a hora da papoila


 

 

Na racha o perpendicular, líquen, a segregação dos ciclos clandestinos da natureza. A fuga é a falésia, um miradouro, avalanche que se dilata procurando alinhamentos fundos na tempestade corporal do enxofre alarme que um sexo incendiado produz.

Então;

O sangue rasga-se-me. E o menstruar sobre o corpo fel cabalista. A margem incha-se-me no troço, na sombra líquida e na palavra permanece. Da vagina brota-se-me a tinta fresca a insónia de um deserto pequeníssimo que cospe o desabrochar tecido em gotas, a recordação viva da vida para que eu possa sobreviver a séculos e séculos de estrondos submersos e persistentes fogos.


 

 

Luísa Demétrio Raposo
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Eu gostaria que tudo o que amo o fosse simples, e simples gostaria eu de ser também.
Sou água ardente onde há regos desabridos em excessos. Há neles quebranto e furores e a inocência que avassala deleite dum. Há em mim vida e há a semente que se instala e que rompe na carne o imortal que cresce nardo e depois de cativo ao alegrete, colhe-se na certeza de um atrevimento. Há a ponta das águas, o esperma que se atira e avança em detrimento do quem o lê na sobranceira. Há coitos...
e há os coutos. Planícies rodeadas de curvaturas e regaços que se vêm em posições diferentes, contra, no movimento dentro da sonância vazada em fiada. Há palavras que a minha boca não consegue pronunciar, mas que separam as coxas muito idênticas à delinquência que alarga com escrita a semelhança entre as virilhas empolgantes e absolutas.
Eu sou e me quero sem ambições brutais, absolutamente fiel ao que rebenta do meu sexo.




Luísa Demétrio Raposo
* 24 de Junho 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015


Escrever ou incendiar é uma antiga fome é uma antiga sede, vem de dentro de mim, veio-me das origens. Não sou moral nem imoral, eu sou marginal, entre o bem e o mal, entre o ir para o inferno e o ir para o céu, eu escolho a escrita genital.


Luísa Demétrio Raposo
 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Há um abalo vivo que ao lado no bolso arde em fúria a saliência resoluta por onde erógeno o pensar avança, arreganhando-se ao gume e procurando a gritaria que leitura e de onde pende carnudo o fruto apaziguador, todo um sangue em prumo reto, que devasso, reúne e engole alcateias para em mim libertar nómadas tempestades.


Luísa Demétrio Raposo
Um corpo não precisa de dietas, precisa de amor de tesão e de expressar toda a sua essência, ser.


ldr
A boca em movimento estala, ucha e rebenta a pressa da outra. Os lábios trinam, saltam e desmaiam, intempestivamente. A língua contra a língua, feroz, prenha de águas ágeis desafiando toda uma liberdade que nada respeita e tudo fermenta. E estoiram-se as bocas em cada perpasso; o alamar de um céu jamais saciado, e quanto mais ágil é a sede mais corresponde o destino à forma agressiva e violenta do desejo.


Luísa Demétrio Raposo
 
**Egon Schiele
duas coisas que um artista não tem definidas; a idade cronológica e o sexo.



ldr

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O sémen é uma estação à beira cio onde o sexo o meu grande sonhador existe; um absciso animal que no escuro enche revolucionário o sentir sobre o execrado, ao detonar a caligrafia, narra pela página o órgão empunhado que emerge íngreme ao arreigado, e tanto pode ser másculo ou feminil, porque dentro às mãos tudo é andrógeno, em centenas de diálogos que guerreiam lado a lado a primitividade das palavras que ao respirar arrancam vertigens dos genitais.

Luísa Demétrio Raposo



*Egon Schiele

sábado, 30 de maio de 2015

O livro é um genital onde se morre demasiado e desaparecem clandestinas as mãos que nele submergem. E é assim a literatura. Grande e ousada, tal como eu sou e me quero sem ambições brutais, mas fiel ao que rebenta e ao que me entrego despreocupadamente e tal como acontece em natureza, sem qualquer preconceito abro a minha semente ao amor e seja ela o que for, desejo ou apenas um dedo pastor…

Luísa Demétrio Raposo
Clitóris, a grande nau o prepúcio lambe aos destroços e a boca queima em direções paralelas à fuselagem.
Estrangula ou degola a escuridão, a sombra dum arco altissonante e labiríntico que esculpe do largar a medida de entre duras arestas que desmata cego, provocando em tudo o órfico a soma de dois orifícios num único arquipélago.


Luísa Demétrio Raposo
A ira do sol ao meio-dia sangra-me na cara robusta. A papoila de encontre a palavra desabrocha, incendeia, confunde, perturba desencadeando toda uma dileção avassaladora, mais devasta que o fulgor do sol quando grassa.
O escuro do olho o expandir absorve ao sangue capitoso, e dinamita a euforia das mãos que se estiram para erguer a duração e sobre elas, em cada uma delas a fúria acesa dentro da exaltação erode.
O escarlate durativo e inumerável, a inteligência de um fogo que tanto de dia como de noite está sempre na parte de fronte e de dentro para fora. Em toda ela, um exalçamento, e esse exalçamento é a distância rasgada à menstruação entre um fundo concubinário onde o pensar sangra e de forma brutal pelo meio das ancas, entre as coisas, o mundo e de onde e desde menina, sangro milhares de milhões de papoilas.

 

Luísa Demétrio Raposo

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O sexo é o único deus que me aparece descalço e é no seu aparecimento que eu desapareço e só se pode desaparecer após o antes que foi ejaculado.




LDR
Com escrita, a boca não consegue pronunciar o que separa entre as coxas, a vulva que as pregas solta ao que no escuro tranca e acescência interna destrava, um corredor ao de leite que ao largo, a testa.
O seio na mão que o despe para corresponder ao que foge clandestino do encalço ao regaço. O lodo entoa até às mangas o que passa rápido pela mão a gritar entre e que pinga e enche os dedos, acima uns dos outros, dedo a dedo afim de gladiar a água mamífera que desce do poial e amputa o equilíbrio ás ondas.



Luísa Demétrio Raposo

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Do pentelho raramente se venera a cor e no entanto é-me a mais inteira.
Pigmento d`alma onde se debruça um assomar e mais se escancara a esfolha porque quando o aroma poisa, a tinta desaparece.
Sérios pensamentos são forças tão vazes como a desperta de um desvaneio percetível na ira do pénis quando a meio da robusta nádega, sangra.


Luísa Demétrio Raposo

Nada cala a ansiedade do sexo. O êxtase que pulsa ao espiar, o escarlate que infla de era em era e de modo potente. Há quem o ache horrendo. Há quem o ache bonito. Eu a ele pertenço e na mais ampla perspetiva me devoto e a dele abraso nua e intensamente.

Luísa Demétrio Raposo

quarta-feira, 13 de maio de 2015

 
É explicitamente sexual a essência na papoila e na mulher; a boca, uma direção desejada, a divindade ereta, o nome onde deito o genital e outras figuras maiores em partilhas interiores. E sinto-me, brava e infinita em pensamentos erógenos, de que é feito o hálito, à caça do som e aroma que das ribanceiras nasce enviesado, o devorar que atormenta as substâncias, molhando-me a frente, raspada e enxuta, porque na vulva há uma mistura possante de um perfume que consegue soltar o sexo que há tanto nas mulheres como nos homens.
 
Luísa Demétrio Raposo

quarta-feira, 18 de março de 2015


O dia a cada instante, um labirinto e o volume disto ocupa-me as horas; são os ácidos passos que a incandescente vulva vomita junto ao sítio, em escrita (diz-me o interno)

Ao fundo da página, Eu, vulcão escrevo sob o olhar que o ritmo admite no cadafalso. Arde o largo grosso da prosa. Do inferno o meu mundo não é outro: o branco em fúria estrado a içar. E quanto mais escrevo mais profunda é a minha semelhança. E o lume pela guarda alastra. Imagino tantas vezes poder deixar a carne e alimentar-me somente nas palavras enquanto larvas, riscar o sangue bravio e a meio coração inteiramente a desaguar, mãos e fogo.


Luísa Demétrio Raposo



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

ANÚNCIO


"É urgente meter a língua na abertura onde se entalam poemas e permitir à brecha o escrever e o penetrar. É preciso transpor tudo, num devorar verbal. Desorbitar a literatura mundana demasiado casta e obscena. É necessário rasgar a acomodação e permitir à Poesia foder até que a carne escreva o que preenche um sexo entre as raízes húmidas numa qualquer fenda que amamente a escrita."


Luisa Demétrio Raposo
"O broche é oralmente escrito e é lambeado à sombra pelo ogro que me resgata ao coloquial. A bestialidade, silva a safra retém. O solferino sobrechega agora e eu, um abisso inferno, o momento em que o corpo morre e tudo explode. E, aqui e para sempre, sem noite, sem dia, dia sem noite, e sem um fim, mas tão-somente o que amplo às faíscas habita.
Imorredouro, tal como um início onde se vivem milha...
res de vidas em um, só devir. O averno que suplanta pressa e se forma púcaro vazio no poema do qual já se perdeu o implícito submergir nos temas escritos e nas palavras que arvoam no papel que, ora semimorto ou semivivo dita imparável a máquina que pensa e enclausura-me.
O coração relumbra, vianda, o tripulante revolucionário a opar seiva, execrado, o uivo sifilítico anódino buscante que aumenta no seu volume a carne. Acarminado range e expande-se, força ulular, a ardina poça que mainça e narra pela página a frase adentro."
Luísa Demétrio Raposo
in "A Ilha"
"Excitação, a vertigem que cerca a víscera da escrita, a força refocilada, o alimento brutal, o alarvado nu entre pentelhos no clitóris a serra emosta e intensa onde os extremos são quentes, uma arena, o gancho selvagem entre a somada onde o penetrar segue a distância na dissolução do tudo.
O caralho é a narrativa, e nele o que importa é a delonga metáfora e tudo o que se narra anteriormente ao seu fenecimento. Um caralho é forte e grosso cheio de colo desde o içar repleto de precipícios duros, largos e curvilíneos. A geometria no órgão é proporcional à alma que nele se cerra. Quando febrilmente fica exposto, sinto-o, entre a sombra absorta, paredes e força, entra, sai, para chegar ainda mais depressa. Ele é o todo que em mim se torna físico. O orgasmo é que nos principia e em nós acaba. Foda agremiação, a lousa. A cona um solo o coração batente que desaperta o texto e o imo poético se manifestava através de um circuito ilimitado, o todo, um creu insistente, onde habita a fornicação que se espelha e nos acompanha os passos um por um."
 


Luísa Demétrio Raposo
pequeno excerto do meu livro " A Ilha"

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

“Vaselina
o subsolo ir-se-ia na instantaneidade o rachar ao olho e devasta por onde oscila o imbuído súbito entre o cuspir de devires à confluência breve do ejacular narrativo alimentando o prolongamento em regato perifericamente orgânico ergue-se da sede mortalha nexo ao fogo povoando-me de terramotos
sol a erecção o buraco assimétrico do corpo atrás da carne o dia entre o sangue flecha ânua estrangula ou degola os poros onde afloram os sentidos e a escuridão viva que perf
ura a fossa
pulmão.”



Luisa Demétrio Raposo
"A sombra por toda a vulva deserta, árida leitura que o sentir voluta, o fecho no sangue por inteiro a erecção, os grãos de areia arquipélagos que desordenam sós, o duro nómada em decerto, aberto."


Luísa Demétrio Raposo

domingo, 25 de janeiro de 2015

a orfandade


O sangue oculto, caliginoso da palavra que oralmente é escrita e é lambeada à sombra pelo ogro que me resgata ao coloquial. A bestialidade, silva a safra retém. O solferino sobrechega agora e eu, um abisso inferno, o momento em que o corpo morre e tudo explode.

E serei, aqui e para sempre, sem noite, sem dia, dia sem noite, e sem um fim, mas tão-somente o que ampla e habita-me.

 Imorredouro, tal como um início onde se vive milhares de vidas em uma, só. O averno que suplanta pressa e se torna o lugar vazio do poema do qual já se perdeu há muito o endereço.

Submergir nos temas escritos e das palavras que arvoam no papel que, ora morto ou vivo dita imparável a máquina que pensa e enclausura-me.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

imo

"O coração relumbra, vianda, o tripulante revolucionário a opar seiva, execrado, o uivo sifilítico anódino buscante que aumenta no seu volume a carne. Acarminado range e expande-se, força ulular, a ardina poça que mainça e narra pela página a frase adentro."


Luisa Demétrio Raposo

sábado, 17 de janeiro de 2015

do meu livro AMMAIA





A vulva é um escrito de entre um deserto violento, um orifício bárbaro, o contorno safra, a carne improvável que renasce leituras e que a boca desmata na imagem, incidindo sobre o sexo infindável e quente onde a palavra lateja e escreve sombras até encontrar circunstantes. Fode-se, bebe-se

de entre eruditos pentelhos que atracam as seivas co) abertas, no lamber absorto ao lume que orbita no orvalho a meio das coxas.


A boca é toda uma serpente que no sexo se arrastra ora depressa, ámen, orando carpia a carne erecta, masturbando-se na saliva e ascendendo o rastro das águas obducto de hóstias ou de sémen. Na conflagração prossegue com o texto, na micção a narrativa é fraga, um acanhonear laranja ao encontrão e do pretérito arvoa o gemido letalmente, deixando-nos a paz.

Luísa Demétrio Raposo

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ala mada



"O tremeluz a humidade da rua sobre, acende a inocência do soalho. Embate na boca. Arde pia de entre o sexo meio aberto meio penetrável; a exasperação nua ao fascínio eclode; sobre a pele, levanta voo, um pássaro e vagueia-se pelo travo a língua. Marulhares, às nuvens devem perturbar. Ousar rejeiras a cal à aberta que conheço. A vulva a liquefacção onde todos os pássaros húmidos pousam a deliquescência a boca e o poema existe em simultâneo languescer. O sentir naufraga. O cais. A lentidão sobre a transumância: escreverei. Fora de ti. O corpo ave: o grande interior, um excesso que desliza, por vezes sangra e coincide com o cretone aterrado. a embriaguez  é um desvio inacessível, e penso em nada desaguar…"

Luísa Demétrio Raposo




* a foto é retirada da net, desconheço autor

sábado, 27 de dezembro de 2014

Ao fundo da calçada a rua estreita-se e dilata. O olhar cadafalso o ritmo admite. A foz silvada preenche as calças. A braguilha mão-dentro e o largo a erecção grossa da prosa masturbam violentamente. Entre a pausa o músculo o pénis interdito alastra. O sistema desarruma eriçando a curva e do inferno entorna-se a água de entre marginais uivos dos pentelhos em erecção que veneram e movem-se a fim de gladiar. Depois, a derrocada, a morte finita, e basta.
Indigente o animal que sai nu no olho incentivado pelo escuro a ofegar abundancia na palavra dita em voz baixa.



Luísa Demétrio Raposo
In AMMAIA

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

a ILHA

“A elipse prenuncia o outro lado, o sol, a beleza em braços abertos, entre o esperar sombra a aldeia o fisco, os pólenes pinta de entres a cal que em Junho regressa para a alamar as paredes. O movimento enconca-se sobre o espaço maternal, o regresso ao berço que embarca o quarto ao dia em que o meu idioma desapareceu.
A casa.
 Aqui a saudade é a ruína de um hemisfério, a vertigem catártica, um ritual anterior prisioneiro ao meu corpo, no agora. Dorindo a viagem, acabo de desconstruir o lugar de onde me deixei.
Acendo o cigarro rizomaticamente.
A tarde continua a ser a fenda entre a reconquista das origens. Os meus olhos. Volto a mim, no cheiro silvo da noite. O grito nórico na terra onde prisioneira embate a papoila, essa essência vermelha onde as minhas palavras se dinamitam. Eu, hei-de relembrar dos campos nos horários mais abatidos, o regresso ao trabalho-cidade.
Ao fundo da rua, a euforia de umas mãos enrugadas que se estendem para construir embates e destruir o abismo do tempo, esse lugar espeço onde plenitude é uma espécie de linfa interminável. Refugio-me no fluxo encantatório do negro alcatrão que recorta e reconhece a entradas de todas as casas, devassando-me de entre uma dramática ausência.
O grito varzino do ar puro por onde os gatos anaçam. A essência alça o caminhar, e o rosto dói no rastro da boca que ao mesmo tempo reordena a alegria, o astro, o coração que duplica a voz dos outros, dos que estão além da contradança da pele e que minusculamente me fazem companhia saudando-me. É tarde, estou cansada, as alegrias apesar de abertas continuam em silêncio. Os cães passam por mim e sem julgamento, sentem o meu alvoroço, o lugar estrangeiro que reconhecem pela brisa que os destelha por instantes.
Acaba-se o tabaco, o vício corrói e devolve-me a imagem em que eu fumava dentro da adolescência superpovoada de fascínios, campos e de noites portadoras dos amplexos gracejos, onde eu era um pequeno pássaro furtivo e voava incessantemente pela planície esplendorosa onde guardo ainda hoje as minhas mais secretas inconfidências.
 Hoje sou a águia nas tonalidades de todo um entardecer na estalada dos muros que murmuram entre áulicos dias.
 Os astros, áspides, as raízes todas e as estrelas o útero onde planam e reatam as encruzilhadas narrativas, o céu ortográfico que cai do papel para submergir nas ruas desertas.
O vento soa sobre os tragos do vinho que inevitavelmente sove os arreios no copo.
 Gera-se um instante soberano, o regresso da memória aonde destinto as parábolas e as falésias ilesas do Alentejo.”


 Luísa Demétrio Raposo
* pequeno excerto do meu primeiro romance  " ILHA"

foto  Maxim Vakhovskiy

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A boca fermenta e deflagra vícios, curvilínea arde em milhões de instrumentos e mistura frases desembestadas entre as forcas da carne em apoteose.
Oral o coito a tempestade que o cio indecoroso semeia na erotização e eu a meio no risco violento do sangue em bosque a possuir mundo, ao transbordar o dar à crosta e pertencer por inteiro á viga garganta abaixo, à vulva onde nada principio entre os improvisos do sémen que sai e só e morto.
Luísa Demétrio Raposo


* in AMMAIA

Silo




 Infernal aparição odorífera a palavra que chega através do céu em liquefacção.
Duas bocas um triangulo pélvico manipula poemas por entre a rua mais deliquescente o lado indecifrável a carne aquando desordenada inunda infindavelmente a atmosfera onde o negro desértico molha da raiz à flor da gruta na velocidade curva do êxtase.

Luísa Demétrio Raposo

* in AMMAIA

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Crucifige


É a irrupção que dismetria a tribuna das batinas em iminência, lavrando interditos os dialectos rente ao exausto levantado que incha revolucionário sobre a risca o consentir execrado e que afunda-se no decurso violento em um regato que o pendura.
O urinar
Ímpio no sulco traiu mutilando o amplo sifilítico que anódina busca-o aumentando a sua pária em carne. O desalinho muscula a vermelho range engate e expande-se à estridência do sangue que enforca o gemer e ardina poça a despenha-se entre as pernas sob o fluido subterrâneo equivalente alquebrado sémen.

Luísa Demétrio Raposo

* do livro AMMAIA



* foto Frantisek Drtikol                                    

                       

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Entalhe rê


 Indeterminável labirinto e sangue pulsional fundem o itinerário cíclico, a fusão.
Apavorantes artérias as interrogações que o sal multiplica na simultânea indizível à meteorização do de leite desertam. À cratera mergulham intangíveis raízes à profundidade de um enigma. Hegemonia pixa alavanca ilha e coarctado espigão a nascente de babas que travessa a voz e todo o refluxo extrai.
O eclipse brecha mina o inominável interior à noite em debrum. Sonâmbulo cio o alimenta tanto como soe nome e todas as heracleias que florescem na abrevia dos matos. A flórula e todo um nicto ama.

Luísa Demétrio Raposo
* do livro Ammaia



* foto  Hans Bellmer

                                                    

                       

Sempiterno


  Anais em carvão, apara o incesto geográfico, destruir atmosfera. Da amofinação do corpo só vejo ravinas, o incensário. O escalpe da tinta gira no enxofre. A órbita grávida de universos, onda que destrói e me corta aos pedaços nas frases que empurram os eixos e no orifício escrevem cadafalsos impalpáveis entre os.
Na cabeça rajada a cima o sexo onde incorruptiveis as ferramentas salivam e há uma marinhagem na parte de trás.
A lavoura pubiana a ignição de todos
os centímetros que partem à boleia de excrementos entre os patamares, pontes que focam as fossas e estimulam a rouquidão dos lugares arquivos.
Sombra o hifene escreve a carlinga clareia-se em volta da folha de papel e eu bassula existo em cada frase na queima abrupta a vulnera idade de cada palavra que se inscreve e abriga aos poucos uma grande rotunda.



Luisa Demétrio Raposo

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014


Todos os meus sonhos são filhos de sombras num preto frontispício e quanto mais a combustão me empurra mais se escorcha o preto em todos os lascados caudais.

O reflexo de cor transmuda de uma engenharia que o cérebro acrisola, a sedimentação é tudo o que se alcança.    

Luísa Demétrio Raposo
Ao fundo do eclodir existe a geografia encostada à página inteira, na profundidade da escrita em que principia a violação frenética da circularidade descontínua que sou, a desvinculação sexual do fogo volátil, uma marinhagem invisível onde o cio se desmorona e onde as pulsações fervem e ceifam em cada som a silaba. Aberta num cais.


Luisa Demétrio Raposo

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Um coração é terrivelmente cru entre os nós da carne, pulsante e repulsando um abismo animal, o escuro revolucionário que incha sobre a risca do sangue execrado. Alcarsina, mão viúva que afunda o decurso violento em caligrafia e narra pela página um regato e o pendura e eu só mato.
 O ímpio atrai-me na revolta mutilando o uivo sifilítico que anódina busca-o aumentando o seu volume na carne.
Do ferrolho o vermelho range o engate e expande-se ao céu. A água força o gemer e ardina poça despenha-se entre as pernas sob o texto alquebrado.

Luísa Demétrio Raposo





sábado, 18 de outubro de 2014

A capa do meu novo livro VERMELHO al mojanda, que assinala o equinócio e a celebração do meu 41º aniversário.
É um alimento ofegante para amantes de literatura viva; pulsando...!

Faça a sua encomenda através de livrosdaredil@gmail.com

quinta-feira, 16 de outubro de 2014


É preciso lubrificar as aberturas onde se entala poesia sobre cercos minados e deixar vibrar qualquer tipo de brecha. Deixar as vaginas falar. Ânus, deixai-vos penetrar.

 O alcance é um cotovelo carregado de ossos que nos atulham os passos. É preciso transpor todos os potentes muros. Governai desorientação na obscuridade os verbos literários que não passam de cabeças. Desorbitar a escrita. É necessário sair da acomodação e deixar a Poesia fornicar até que a carne escreva a contradança de todas as orgias, o sangue geográfico que preenche o pénis entre as raízes húmidas de entre a vulva que amamenta a escrita.
Luisa Demétrio Raposo
foto Irving Penn,  Bottom

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bestial a boca fermenta e deflagra vícios. Curvilínea arde em milhões de palavras furiosas e mistura as frases desembestadas entre as forcas da carne em apoteose. Oral o coito a tempestade que o cio indecoroso semeia. A erotização diz a respiração e eu ao meio do risco violento. O sangue em bosque a emergir. Possuir o mundo e transbordar ao dar vida à crosta e pertencer por inteiro aos vigamentos garganta abaixo. A vulva, negra, penitente precipício, nada entre os improvisos, o sémen cai e só é morto.


Luisa Demétrio Raposo
retirado do livro dos contos

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ao fundo da calçada a rua estreita-se e dilata. O olhar cadafalso o ritmo admite. A braguilha mão-dentro e o largo a erecção grossa da prosa masturbam violentamente. Entre a pausa o músculo o pénis interdito alastra. O sistema desarruma eriçando a curva e do inferno entorna-se a água.

Luisa Demétrio Raposo
A vulva um poço violento onde nasce libidinosa a escrita e no contorno da carne distendida e escancarada a leitura que a boca desata na imagem, incindindo sobre o sexo infindável e quente onde a língua lateja e escreve sombras até encontrar circunstantes. Fode-se. Bebe-se de entre o lodo que atraca as seivas. Teias sempre abertas.
Ao lume lê-se baixinho, o sentir demorado nas orbitas as coxas. Extrair fogo é uma arte porque a ostra pressente sempre o sal e, somente ela despe ...
a língua que pouco a pouco aresta.
Todas as línguas possuem serpentes que no sexo se arrastram ora ligeiras oram suaves e tremem à carne erecta e masturbam a terra. O cuspo coberto de hóstias ou de sémen. Abandonei-me. O orgasmo caiu-me do ventre. A elanguescer.
Na fenda fica fogo, a minha afeição e o incêndio prossegue com o texto. O coração perde-se lá do alto no momento da micção. A narrativa atinge-o como um carrasco e na sua base desapareci. O bombear dá-se ao encontrão.
Aberta a porta e nos ruídos saem os gritos.
Eu, o ponto vazio. Lentamente.


Luísa Demétrio Raposo

retirado do livro de contos.

*foto Franz von Stuck, The Sin 1803

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


 incêndio a intempérie a violência que transforma em margens o cemitério que me habita e onde somente o eu-deserto ressuscita. o grito a língua contínua mata quebra e extermina. a tempestade ascende ignóbil na demência o ser o ter e o sido embrulham-se-me. afloração monstruosa vem dum raio fundamente. Sol a violação o sangue em composição longa e larga na decifração e faz a carne obesidade grossa de um defecar inominável. ergue e estanca o só finito.
Luísa Demétrio Raposo

terça-feira, 23 de setembro de 2014




a geometria do meu reflexo devorando o negro que a mão escreve. vivo. mas não sei escrever. reflexo de calor húmido. o rasgar na lama abominavelmente bebe. crescente a maré solta penetra todos os lugares em gritaria.

Luisa Demétrio Raposo
 a sentir-me incompleta.

domingo, 14 de setembro de 2014

"mais ousadia e menos consciência. a consciência é a gaiola que nos aprisiona os sentidos e condiciona o acto de criar algo, e quem não ousa habita uma frustração ilimitada."

Luísa Demétrio Raposo

domingo, 7 de setembro de 2014

a tinta


ao fundo do coração uma rua invulgar prosa o escuro e o que sou bombardeia violentamente a escuridão repleta.
queima o lume a boca que na escrita rasga come furtivamente une e destila a palavra obscena. poesia. quando penetro a carne e cuja saída não passa de uma exaltação igual à minha.
na cabeça funda a obscenidade, escrever ora e sem o saber continuar a gozar de mão segura.
 
 
Luísa Demétrio Raposo


*Human heart by Arnold Hohmann

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

o corpo cadáver é o que me separa de tudo no mundo. é o circuito fechado do perverso que me separa nos outros, sempre, sempre. a perspectiva enforca e no barulho não há nada pior que ter que ser antes de escrever. o suor delineado do sangue a escorrer, ilustre. é a morte de todos os esforços e de todas as gritarias nos lugares onde a minha calma cedeu e partilhou dela. a aflição que sempre acabava por me descontrolar os lábios, exibia-se muito e por isso pus-lhe uma mordaça. delirava puerilmente deixando-me arrastar pelo pavor de todos os horrores que estão vivos e são de origem orgânica e humana que dilaceram e se apossam nos delírios causando maleitas e outros tantos estados febris. ainda a convenção intolerável feita de contas e números.
caí no abandono das faculdades mentais, já não temo a morte neste momento e nem vou falar de infelicidade quando me precede o vício em escrever palavras, erectas, ausentes e sem universo entre o papel e a tinta atenta que chama a atenção obscena. o deboche inverso descreve. não temo a hostilidade do lume nem ferir-me no fogo e na cabeça que um dia já foi minha, entrei. a exaltação igual a mim, reflexo de um inferno infindável e eu à altura do que tanto me oprimia. escolhi arder, escrever, a ter que voltar ao mundo enorme. (...)



Luisa Demétrio Raposo
* retirado do livro dos contos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

escrever as coisas bonitas é um atentado. orar desinteressa-me. iminências, quero a língua toda aberta e ver os mil homens que nela imprensam as conveniências. vómitos.
o após vomitar;
existem fomes maiores num caralho e que o organismo alheio consome. foder o fel manso; a fórmula mais básica. a compulsão cria em si o acto. transcende. ritmo não é conveniência, está muita além. há a energia que sai nas ginetas para os genitais. fora disso é o maior crime. ...
a ordem interna; narração. carne é a única linguagem que rompe. o que a boca fala é um som violento que alastra, a armadilha selvagem das cordas vocais.
há vaginas não que passam de bexigas, só mijam. invejosas; abre indo-vos à largura, comei tudo comeis todos que eu sou totalmente de acordo com a copulação. não fodam é a cabeça aos outros. tu aí entre os comuns, que tocas os teus olhos nos vitrais do que escrevo, não percais tempo, ide antes ao talho e unis a boca à carne. enche-te e preenche-te. alimenta, a masturbação sempre pôs tudo a luzir. despenha-te antes da dissolução, o sal entre as águas potência afectos. urinai, urinai.


Nota: falar antes de defecar pode ser considerado perversão.

Luísa Demétrio Raposo
o extremo é um excremento em libertação, orquestra e desforra-se num peido em sacrário que eu ofereço às libertações barrigudas que menagem o incomensurável sem cu que em combustão arde, arde, e não.

Luisa Demétrio Raposo
o exterior é todos os sítios e visito-me;
agridem-me os pesadelos que dentro nos outros embarcam ausentes do aqui e para o que às imagens descrevo inadequadas são à realidade em que creio.


Luísa Demétrio Raposo
ao fundo do coração uma rua invulgar prosa o escuro e o que sou bombardeia violentamente a escuridão repleta.
queima o lume a boca que na escrita rasga come furtivamente une e destila a palavra obscena. poesia. quando penetro a carne e cuja saída não passa de uma exaltação igual à minha.
na cabeça funda a obscenidade, escrever ora e sem o saber continuar a gozar de mão segura.


Luisa Demétrio Raposo

terça-feira, 12 de agosto de 2014

um inferno é o que separa-me do mundo. é um demónio que rasga-me nos outros, sempre, sempre.
a natureza esbraceja e no barulho não há nada pior que ter que ser antes de escrever.
o corpo, ausência, sem universo entre o papel e a tinta atenta que chama a atenção obscenamente larga.
não temo o lume nem arder no fogo agonizante das labaredas, escrevo o inverso dentre o conflito da carne na arte.
Luisa Demétrio Raposo

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

escrevo para poder desaparecer. escrevo para me diluir nas palavras e assim poder matar a mulher e a carne.
a escrita é o lugar onde pertenço e que no coração está vivo e sangra directamente para o abandono dos textos mantendo-nos ambos vivos.


Luisa Demétrio Raposo